segunda-feira, 20 de abril de 2020

A música incomoda muita gente...

Por estes dias de recolhimento no aconchego do lar há sempre uma ou outra pessoa que tentam alegrar o nosso dia, torná-lo especial e menos aborrecido. São inúmeras as imagens de Espanha e Itália de pessoas em festas à janela. O conceito é muito simples, um mete a música e todos dançam e cantam, cada um na sua janela, no conforto da sua casa e acima de tudo num isolamento social ao mesmo tempo a partilhar uma experiência de vida nova a todos nós. Afinal de contas o artista pode estar do outro lado da rua o que até pode parecer longe, mas já pensaram na distância em que fica o palco do Rock in Rio do topo oposto do vale onde se realiza?

Depois temos o José (nome nada fictício desta vez), José Malhoa, figura incontornável da Música Portuguesa, goste-se ou não temos de o reconhecer seja pela sua já longa carreira seja até pelo número de festas e festinhas na terras e terrinhas que todos os verões o convidam a mais um concerto. Este é o Zé!

O Zé, amigo de todos os seus vizinhos teve a ideia de fazer o que qualquer animador faz, animar. É isso mesmo, Bruno Nogueira deu o mote a livestreams no instagram e de repente temos setenta mil pessoas a assistir ao Bruno Nogueira e panóplia de convidados como Albano Gerónimo, Nuno Markl, João Quadros ou até Maria João Pires que nos presenteou com um brilhante concerto de piano, mais intimista só ter o piano na minha sala; tal como Bruno Nogueira fez no Instagram o Zé quis fazer a sua parte, quis trazer conforto aos que moram perto de si e um momento de descontracção que nos afasta por alguns momentos de todo o ruído à volta do vírus e das perguntas já mais do que repetitivas que todos os dias o jornalistas fazem questão de bombardear os oradores do briefing diário acerca da evolução do vírus nas últimas 24h.

O Zé quis ajudar, quis cantar para os seus vizinhos, já não era a primeira vez que o fazia, porque não fazê-lo novamente? Isso queria o Zé. Aparentemente algumas pessoas, vizinhos mais distantes do Zé, também se quiseram juntar à festa e apareceram na sua rua para assistir ao Zé, este consciente afirma que até recomendou a separação física das pessoas para evitar concentrações e aumento do risco. Quem não estava pelos ajustes era a GNR, segundo alguns diários noticiosos a GNR chegou com 7 viaturas para acabar com o concerto do Zé. O Zé ficou indignado, não entende porque é que foram lá acabar com a sua tentativa de dar conforto às pessoas que vivem perto de si, de lhes trazer um momento diferente. O Zé foi identificado pela GNR como se tivesse cometido alguma transgressão a todos nós desconhecida, pelo menos que eu saiba e respeitando as leis do ruído.

Numa análise tentativamente crua e nua, eu não sou fã da música do Zé mas reconheço o valor enquanto músico e nesta situação como artista a tentar fazer a sua parte, eu acho que realmente poderá ter havido por aqui algum excesso de zelo por parte das autoridades. Compreendo que achem perigoso a concentração de pessoas na rua do Zé, mas... não deveriam elas a serem identificadas? Não me parece que o Zé tenha arrastado alguém para a rua para assistir ao seu concerto. Em resumo as autoridades não trabalharam mal em evitar a concentração de pessoas, falharam foi o alvo porque na minha modesta opinião o prevaricador (palavra cara), é o zé (sim letra pequena), o zé povinho que fez questão de sair de casa para ver o Zé (o da letra grande).

Para os que moram perto do Zé espero que voltem a ter concertos "à borla" novamente enquanto isto tudo durar e a todos os demais podem sempre ver o Zé no Youtube no conforto de casa, até quem sabe no sofá e com uma fresquinha ao lado, querem melhor?

À GNR: Ouvi dizer que haverá um evento com grande concentração de pessoas lá para os lados de São Bento no dia 25 dá para dar lá um saltinho?

(Disclaimer: Não sou countra a realização das comemorações do 25 de Abril, apenas sou contra os moldes em que as mesmas se realizam, é possível fazer o mesmo com menos pessoas concentradas num local fechado)

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